Primeiros conversos adventistas no Brasil

Primeiros conversos adventistas no Brasil

Por Diego Rocha

 

*Ver nota sobre foto acima ao final do artigo

 

 

A Review and Herald de 31 de março de 1885 divulgou uma carta vinda do Brasil onde o emissor, um professor, diz estar guardando o sábado juntamente com outra pessoa. Infelizmente, o editor da notícia decidiu omitir o nome e a localidade desse professor. A carta original pode ter-se perdido no icêndio da publicadora Review and Herald em 1902. Abaixo temos a tradução na íntegra desta carta (grifos meus).

 

[Apresentamos algumas cartas do Brasil e da Rússia bondosamente traduzidas pelo irmão Kunz. Estas mostram claramente como a verdade está se espalhando às partes mais distantes, e até mais escuras, da Terra. O surgimento de guardadores do sábado e trabalhadores no Brasil e na Rússia sem a ajuda do pregador vivo mostra que Deus está ajudando esta causa a avançar... G.I.B. [George Ide Butler, presidente da Associação Geral à época]]

 

4 de fevereiro de 1885

Editor da Stimme: Recebi sua estimada carta e os folhetos no último mês de novembro. Os folhetos, bem como a Stimme, estão sendo distribuídos em meu distrito e são lidos por muitos com grande atenção. Entreguei também alguns exemplares ao nosso ministro. Parece-me que esse cavalheiro possui pouco conhecimento sobre o desenvolvimento da igreja mais antiga; visto que ele, apesar das provas mais evidentes em contrário, insiste em afirmar que o primeiro dia da semana era observado na época dos apóstolos. Ele me entregou também um folheto intitulado ‘História do Reino de Deus na Terra’, de autoria de F. L. Miller, um pregador evangelista. Essa obra afirma que ‘desde a época dos apóstolos, o domingo tem sido observado em lugar do sábado judaico, para comemorar a ressurreição de Cristo’.

É uma tarefa árdua convencer as pessoas daqui de que elas ainda se encontram nas trevas. A América do Sul é, decididamente, um continente católico. Os poucos protestantes — ou, melhor dizendo, semicatólicos — estão em declínio e seguem, tanto em seu coração quanto em suas obras, a grande massa (o mundo, se assim posso dizer), que lhes serve de modelo. Católicos e protestantes guardam o primeiro dia; mas de que maneira? Trabalham seis dias com todas as suas forças. Aos domingos, carregam suas carroças, jumentos e cavalos com produtos e dirigem-se ao mercado para vendê-los. Um sétimo dia específico da semana para tais propósitos ainda não foi estabelecido aqui.

Várias pessoas em meu distrito convenceram-se da verdade por meio da leitura dos folhetos e da Stimme, e reconhecem que estão equivocadas. Outros, que ainda não se convenceram da verdade, fazem a seguinte pergunta: ‘Se a doutrina ensinada por esses folhetos e pela Stimme constitui a pura fé apostólica, por que nossos ministros não a aceitam?’ Uma terceira classe (os materialistas) não hesita em espalhar a vil falsidade de que sou contratado por sua igreja ou sociedade de tratados, a fim de obter tanto para eles quanto para mim vantagens materiais. Em suma, os católicos e os protestantes (materialistas) buscam derrubar aquilo que eu estou tentando edificar. Eles chegam até a ameaçar destituir-me do meu cargo (professor), visto que introduzo novas doutrinas.

E agora, meu irmão em Cristo, permita-me informar-lhe que a boa semente que foi semeada por meio dos folhetos e da Stimme, em meio a essas ervas daninhas, está gradualmente criando raízes. Além de mim, há mais uma pessoa guardando o sábado; outras três assinaram a Stimme, e envio-lhe, por ora, 6000 mil-réis [cerca de US$ 3,24] para pagar os periódicos deles e também o meu próprio. Caso o dinheiro não seja suficiente, tenha a bondade de enviar os periódicos assim mesmo, e eu pagarei o saldo imediatamente. Espalhei os folhetos que você me enviou. Se o senhor tiver sermões avulsos ou livros de sermões completos em estoque, solicito urgentemente um exemplar de amostra. Tenho livros de sermões do meu pastor que não contradizem a Stimme, mas tampouco ajudam a estabelecer a verdade dela. Se o senhor tiver gravuras de alta qualidade, por favor, envie algumas. Os novos assinantes bem podem ser comparados a crianças. Primeiro as gravuras, e depois o periódico.

Tudo de melhor e ore por mim em suas reuniões.

Com o mais profundo respeito,

                                                                        __________________     __________________”

 

Guilherme Belz

Carl Friedrich Wilhelm Belz, ou Guilherme Belz, é tradicionalmente apresentado como o primeiro guardador do sábado no Brasil. Segundo a historigrafia tradicional ele começou a guardar o sétimo dia por volta do ano 1890.

O relato mais antigo registrado sobre esse assunto na lingua portuguesa é provavelmente aquele do pastor Germano Streithorst, publicado na Revista Mensal de novembro de 1924. É a primeira vez que figuras como “Burchardt” (Borchardt), “Carlos Trefke” (Dreefke), “Chikrevitowsky” (Chikiwidoswky), Dressler [**ver nota abaixo], Davi Hort, Guilherme Belz aparecem na literatura adventista brasileira. Relatos posteriores de Meyers (1928, na Revista Mensal) [Meyers foi diretor do departamento de publicações da DSA entre 1923 e 1927] e do próprio pastor Germano (1958, na Revista Adventista) vão apresentar dados ligeiramente diferentes do relato de 1924. Qual relato estaria mais próximo da realidade? Os três relatórios são frutos de conversas que os pastores tiveram com os locais quando visitaram Gaspar Alto-SC.

 

Considerações Finais

Em 1924, Streithorst diz que Chikrevitowsky e Dressler eram ambos professores e ambos trocaram ou venderam literatura adventista por bebida alcóolica. Tradicionalmente, todavia, se diz que o primeiro é professor e o segundo é o bêbado. Ainda segundo o relato de 1924, Guilherme Belz teria se convertido/iniciado a guardar o sábado em 1889. O relato de 1928, por Meyers, apresenta o ano de 1890. Na carta traduzida acima, escrita em fevereiro de 1885, temos duas pessoas guardando o sábado, sendo um deles um professor, além de outros que "convenceram-se da verdade por meio dos folhetos e da Stimme" - estes possivelmente se converteram em 1884, quando receberam a literatura.

A identidade do remetente da carta de 1885 permanece um mistério até o momento. Poderia ser ele o professor Chikiwidoswky ou mesmo um personagem de um outro estado brasileiro? Poderia este ter sido um relato fraudulento de uma conversão falsa? O campo para especulações é vasto, mas se nos atermos aos documentos temos a informação de que “a boa semente que foi semeada  produziu o fruto de pessoas guardando o sábado e formando raízes adventistas em território brasileiro já em 1884/1885.

 

*Em 1966, Robert Wearner, missionário e professor de Bíblia no Instituto Adventista del Uruguai, fez uma visita juntamente com sua família a Itajaí e Brusque. Wearner queria conhecer o local onde o adventismo no Brasil se iniciou, especialmente o Casarão Hort. Ele recebera o endereço aproximado do ancião local em Brusque, Artur Pieper. Conseguiu encontrar a casa, mas Artur nao estava presente. O filho de Artur, uma criança de 12 anos se ofereceu para os conduzir à casa Hort que se encontrava a cerca de 10km. O garoto, no entanto, ficou meio perdido. Encontraram uma irmã adventista que os ajudou a finalmente encontrarem a casa. A casa na foto de Wearner parece diferente do casarão Hort que conhecemos hoje, mas decidi usar esta foto devido ao espírito aventureiro e historiador de Robert G. Wearner. Maior investigação sobre a foto e visita de Wearner é necessária.

 

**O personagem “Dressler” é muito provavelmente Friederich Dressel. Artigo sobre Dressel:

https://www.thepatchfinder.com/blogs/news/carta-do-bebado-dressel-1887

 

 

(Crédito da  foto: Eduardo Maestri)

Brusque, ano desconhecido - nesta foto podemos ver o casarão Hort e casas muito similares àquela encontrada por Wearner

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